Como tudo começou #1

Como tudo começou #1

Sempre fui uma pessoa curiosa por natureza.

Os primeiros contatos com o verde me remetem à infância e a vovó que sempre teve a "mão boa" para plantas. Jardins, grandes quintais e varandas repletas de plantas são a memória perfeita da vida numa cidade de interior.

O tempo passou e estar próxima à  natureza continuava se configurando como um momento de calma e prazer, mas por um longo tempo por conta de uma agenda de estudos ou trabalho, isso passou a ser segundo plano.

Até que, a pandemia chegou com um convite à reflexão. E a apreciar.

Passei a observar pequenos detalhes que passavam despercebidos. Pequenos que se tornaram grandes detalhes. 

As plantas nos deslocam para lugares muito interessantes e nos ensinam muito sobre o tempo. Nos mostram que cada ser vivo tem seu próprio ritmo de crescimento. Enquanto algumas têm ciclos vitais curtos, outras podem viver por centenas e algumas até milhares de anos. Uma flor pode demorar meses para abrir, enquanto outras podem mudar de um dia pro outro, num ciclo incrível. 

Ter plantas em casa é mais que uma bela decoração. É um exercício de contínuo de observação: se falta água, se tem sol demais, o desabrochar de uma flor ou ou despertar de uma nova folha. E é aí também que percebo o quanto vivemos impacientes e ansiosos; mais uma vez as plantas nos ensinam sobre a importância de esperar o tempo das coisas. Não adianta querer ter pressa, não temos controle. Por vezes elas poderão perder todas as folhas, todos os ramos, não demonstrar nenhum sinal de vida, mas ainda assim, elas podem estar apenas retomando o ar. Talvez seja o momento de se libertar das folhas secas, de permitir o espaço vazio para que a vida se renove.
E mais, nos ensinam que não precisamos florir o tempo todo. Que haverá momentos em que nos sentiremos sem folhas e isso também faz parte do ciclo da vida. 

  

Posso dizer que as plantas me ensinam, diariamente, sobre resiliência.

Quando cortam ou arrancam uma planta, ela é capaz de reconquistar seu espaço. As plantas se adaptam, nascem onde podem, do jeito que podem. Quando algo ruim acontece ou sai dos planos, ou quando pensamos que as coisas deveriam ser diferentes, tendemos a pensar que tudo está errado e que o mundo vai acabar. A força da natureza mostra que, mesmo com condições adversas, mesmo quando parece não haver mais fôlego, ainda há sinal de vida.

A natureza é a expressão máxima da existência.

Estar em contato com ela me traz uma lembrança aconchegante de pessoas queridas, as quais tive que me despedir recentemente. Uma sensação inexplicável. Um conforto no coração e um combustível a mais para seguir em frente.  

Outro dia li um texto do biólogo Anderson Santos, fundador da Escola de Botânica, que marcou muito. Segue um trecho:

“Há alguns meses venho vivendo um processo profundo de reconexão com o tempo. Lembro de muitos momentos da infância, quando o tempo era mais solto, a mente era mais livre, meus maiores compromissos eram com meu relógio biológico. Sinto que tenho conseguido, de forma muito gradual, me conectar com a consciência da necessidade de viver esse ritmo do passado.

A parte difícil de tudo isso é que vivo num mundo onde os estímulos e pessoas com quem compartilho o tempo e espaço, seguem um ritmo diferente e acelerado.
Me dei conta que a ansiedade que me cercava não era minha, mas do mundo, das pessoas, do meu entorno. Daqueles que vivem em um ritmo descompassado da biologia, da vida, das plantas e da natureza. Como ser-humano-natureza me exercito constantemente a não sair da frequência, não desorquestrar a música e não quebrar o ritmo da dança da vida.
Olho para o lado e vejo a ansiedade brotar a flor da pele nas pessoas. Uma incapacidade de ouvir, de sentir, de estar presente no mundo, no agora.”

Se podemos aprender algo com a natureza é que diminuir o ritmo é necessário para o fortalecimento da vida e que as marcas são a melhor forma de contar nossa própria história.
Sigo apreciando cada árvore, cada canteiro, cada jardim que passa pelo meu caminho, tentando não sair da frequência do ritmo da vida!


E você, me conta um pouco sua relação com as plantas?

Por Jade Botelho